Todos sabemos que sonhos não se realizam da noite para o dia.

Inclusive, eles podem ficar escondidos até percebermos que sempre estiveram ali e então tiramos da sombra e os trazemos para a luz, mesmo sabendo que esse movimento nunca é simples.

Essa introdução um tanto metafórica é para contar aqui um pouco sobre a minha trajetória como locutora. Desde o início, passando por trabalhos marcantes – como a locução para o Spotify – até hoje.

 

Como tudo começou

Bom, toda história tem um ponto de partida no tempo e no espaço e a minha começa na infância, quando eu ainda morava no interior paulista e desde lá já sonhava trabalhar em um estúdio de som. Foi seguindo esse desejo que, quando jovem, me mudei para São Paulo para cursar faculdade de música.

Foi então que comecei a ter contato direto com a área de produção de áudio e pude trabalhar em várias produtoras, desenvolvendo trilhas sonoras, sound design e dirigindo locutores e atores na gravação de peças publicitárias.

Paralelamente a isso, tive muitas oportunidades de gravar “locuções guia”, que me serviram como exercício e grande aprendizado, até a minha primeira locução “valendo”.

A primeira vez que ouvi minha voz no ar foi em 2003, em uma locução de Always que fiz para a Proctor & Gamble, e foi aí que dei o pontapé inicial na carreira.

Um pontapé suave, na realidade, pois a decisão de focar na profissão de locutora levou um tempo até ser concretizada.

Sabe aquela paquera que se transforma em paixão até desembocar em um relacionamento sério? Então, aconteceu comigo e a locução. Quando eu vi, já estava apaixonada e entregue, dedicando a maior parte do meu tempo como locutora.

 

Spotify: uma experiência inesquecível

Foi em 2017 que, através de um agente americano, tive a oportunidade de participar de um grande casting para o cliente Spotify Brasil. Foi um processo bem longo e bastante concorrido que durou alguns meses, mas que com certeza valeu a pena!

Quando fiquei sabendo que fui escolhida, obviamente, fiquei extremamente feliz, mas sabia que estava diante de uma missão que exigiria muitas habilidades.

Foi uma das primeiras gravações através de um ISDNBridge, que é um software que permite sincronizar em tempo real dois estúdios: o do locutor e o estúdio de gravação; além de permitir o contato entre o estúdio, o cliente e o locutor em diferentes partes do mundo, com direção ao vivo.

Fizemos duas sessões de gravação, totalizando três horas mais ou menos (em dias alternados). Na primeira delas, fiquei um pouco tensa pois não sabia como seria e se tudo daria certo. Na segunda gravação, eu já tinha proximidade com o técnico do estúdio e uma previsibilidade de como as coisas seriam, o que me deixou mais à vontade e me permitiu uma entrega total àquele trabalho.

Embora tenha sido bastante desafiadora e com alguns momentos de tensão, essa não foi a locução mais difícil da minha carreira, pelo contrário, foi um belo aprendizado e uma realização inesquecível.

 

As dores e as delícias da carreira de locutora

A locução mais desafiadora vou contar aqui,  como quem “conta o milagre, mas não revela o santo”. Certa vez fui contratada por um cliente para fazer uma locução de uma empresa que eu não acreditava nos valores. Acontece que no decorrer da gravação eu percebi que a locução não estava ficando boa, pois eu não conseguia ser verdadeira, já que não acreditava naquilo que estava lendo. E por mais que locução seja um trabalho de interpretação, é preciso colocar verdade em cada palavra dita.

Não consegui. Acabei pedindo desculpas e declinei o trabalho. Tratava-se de uma empresa desonesta que eu não queria ser a porta-voz.

Além dessas situações incômodas da carreira, que acontecem raramente, uma das grandes dores de um profissional de locução é o fato de ser um empreendedor individual e carregar todas as dificuldades que isso implica. O valor recebido por mês é variável e isso demanda um controle financeiro muito grande para poder ter uma reserva, quando tiverem meses de baixa.

Além disso, tem a questão da rigorosa disciplina. Ao se trabalhar com a voz, que é um instrumento delicado, é preciso um autocuidado constante. Uma noite mal dormida, alguns dias sem exercício vocal, uma taça a mais de vinho na noite anterior irão afetá-la.

Em contraparte, também tem todas as delícias da profissão. Desde criança, aquele sonho de trabalhar dentro de um estúdio é hoje algo concreto que me traz uma sensação de plenitude. É como se eu estivesse protegida de todo o mundo e ao mesmo tempo conectada com ele. Além disso, trabalhar com a voz é muito gratificante. Não há satisfação maior do que ouvir um trabalho bem feito. Isso sim, é algo que me deixa sem palavras.

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